Era um bom lugar para comprar livros

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A notícia me pegou de surpresa enquanto eu rascunhava um texto sobre a falta de lugares onde comprar livros no Méier. É uma pena, mas por aqui nunca soubemos o que é ter uma grande livraria perto de casa.

No romance Deuses americanos, Neil Gaiman escreve que “uma cidade não é uma cidade sem uma livraria”. “Podem até chamá-la de cidade”, ele diz, “mas se não tiver uma livraria, estarão apenas enganando suas almas”.

Restrinjo mais: acho que todo bairro merece ter uma boa livraria. Mas aqui na região do Grande Méier as Saraivas mais próximas ficam no NorteShopping. São duas, uma ex-Siciliano e uma megastore. Travessa e Cultura não chegaram. O Nova América já teve uma Nobel e hoje tem uma Leitura. Faz tempo que não vou lá, mas achava apenas ok.

Nunca entendi essa ausência de livrarias no bairro. Será que realmente não há demanda? Ou nenhum empresário nunca nem mesmo verificou isso, talvez por não acreditar que livros interessem ao subúrbio? Engraçado que outro dia passei por um vendedor ambulante que estava lendo Nietzsche na calçada.

Há algum tempo, quem vinha quebrando um enorme galho no quesito livros era o Panno, uma loja de jornais e revistas que, desde que me lembro, sempre esteve no Shopping do Méier. Durante um breve período, eles chegaram a ter também uma livraria onde hoje funciona o laboratório Sérgio Franco, na rua Dias da Cruz. Depois levaram os livros para a loja na entrada do shopping e, atualmente, mantinham um acervo muito bom, apesar do pouco espaço. Cerca de dois meses atrás, comprei lá Vozes de Tchernóbil, da jornalista e escritora bielorrussa e Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch. Um livro muito bonito e triste, construído com relatos de pessoas que tiveram a vida atingida pelo desastre nuclear de abril de 1986.

Estava escrevendo sobre a sorte de ter um lugar onde comprar bons livros no bairro quando fui surpreendida pela tal notícia que mencionei no início. Infelizmente, por conta de divergências com as novas diretrizes do shopping, o Panno fechou as portas. Passei em frente a loja ontem pela manhã e já não estava mais aberta. Era certamente o maior e mais tradicional jornaleiro do Méier. Há alguns dias, uma faixa informa que eles se mudaram para a banca de jornais perto da Parmê.

Minha última visita ao Panno foi no sábado. Dei a tradicional olhada nas revistas e nos livros. Escolhi a coletânea que reúne todos os contos da Clarice Lispector, editada pelo biógrafo dela, Benjamin Moser, para comprar como despedida. É um capítulo da história do bairro que acaba. Voltamos à estaca zero no assunto onde comprar livros.