Vinte e Quatro de Maio

Outro dia escrevi aqui sobre Lima Barreto. Volto a ele porque hoje é 24 de maio, e a rua Vinte e Quatro de Maio foi o primeiro destino do escritor no Grande Méier. Quando o pai dele enlouqueceu, em outubro de 1902, a família deixou a Ilha do Governador para se instalar no número 223 dessa rua. No ano seguinte, Lima Barreto, seus irmãos e o pai se transferiram para Todos os Santos.

A Vinte e Quatro de Maio tem esse nome em referência a um episódio da Guerra do Paraguai: a vitória do Brasil na Batalha do Tuiuti. Nos dias de hoje, a rua liga o bairro de São Francisco Xavier, na altura do largo Subtenente Manoel Henrique Rabelo, ao Méier, na rua Dias da Cruz. No passado, ela testemunhou o início do turfe no Rio de Janeiro. Quase no final dos anos 1840, o Club de Corridas, uma sociedade anônima, adquiriu um terreno alagadiço, entre São Franciso Xavier e Benfica, onde instalou o Prado Fluminense, o primeiro hipódromo da cidade. Ele foi inaugurado na década seguinte, no começo da Vinte e Quatro de Maio, perto da futura Estação de São Francisco Xavier.

Naquele tempo, a Vinte e Quatro de Maio não tinha a extensão atual. A rua, que resultou da fusão das ruas da Estação, do Leite e Gonçalves, terminava no início da Barão do Bom Retiro. Por iniciativa de Pereira Passos, foi prolongada até alcançar o início da Dias da Cruz. Paralela à linha do trem, a Vinte e Quatro de Maio é uma das principais vias de acesso ao Méier e um dos pontos críticos do bairro, pela má conservação, pelo trânsito constantemente engarrafado e pelos episódios de violência.

O cronista dos subúrbios

lima barretoO dia 13 de maio é uma coincidência de três aniversários: o nascimento de Lima Barreto, a abolição da escravatura e a fundação do Méier. Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro, numa sexta-feira, em 1881, sete anos antes da assinatura da Lei Áurea e oito antes do surgimento do bairro. Passou parte da infância e a adolescência na Ilha do Governador, na zona norte da cidade, e, em 1902, mudou-se com a família para o Engenho Novo, na região hoje conhecida como Grande Méier. Naquele mesmo ano, começou a colaborar com jornais do Rio para aumentar a renda. Grande cronista de costumes da cidade, ele foi o jornalista e escritor que colocou o subúrbio carioca no mapa da literatura brasileira.

Lima Barreto era um crítico ferrenho da República Velha e praticava uma literatura militante. Sua obra é marcada pela temática social – ele denunciava as injustiças sociais e os preconceitos de raça. Era simpático ao anarquismo e foi revolucionário ao inserir o subúrbio na cena literária (numa época em que o Centro e o Catete eram os bairros de prestígio do Rio).

Eram temas que ele conhecia bem. Lima Barreto era filho de pais pobres e mestiços e, por toda a vida, sofreu discrimação racial. O segundo de cinco irmãos – sendo que o mais velho morreu ainda recém-nascido -, ficou órfão de mãe na infância e, em 1902, seu pai enlouqueceu. Em decorrência disso, Lima Barreto abandonou o curso de engenharia da Escola Politécnica para sustentar a família. Mudou-se para o subúrbio, onde passou a segunda metade da vida. Começou a trabalhar como escrevente copista na Secretaria de Guerra e complementava a renda escrevendo para a imprensa carioca. Ele colaborou com quase todos os jornais do Rio de Janeiro. Para o Correio da Manhã, escreveu uma série de reportagens sobre a demolição do Morro do Castelo.

Na crônica A estação, publicada em 6 de outubro de 1921 na Gazeta de Notícias, Lima Barreto comenta a importância do trem para o cotidiano do subúrbio. Escreve ele:

Na vida dos subúrbios, a estação da estrada de ferro representa um grande papel: é o centro, é o eixo dessa vida. Antigamente, quando ainda não havia por aquelas bandas jardins e cinemas, era o lugar predileto para os passeios domingueiros das meninas casadouras da localidade e dos rapazes que querem casar, com vontade ou sem ela.

(…)

De resto, é em torno da “estação” que se aglomeram as principais casas de comércio do respectivo subúrbio. Nas suas proximidades, abrem-se os armazéns de comestíveis mais sortidos, os armarinhos, as farmácias, ou açougues e – é preciso não esquecer – a característica e inolvidável quitanda.

Na sequência, refere-se especificamente à estação de trem do Méier:

O Méier é ponto inicial de quatro linhas de bondes, uma até de grande extensão, a de Inhaúma, e outra que leva à Boca do Mato, lugar pitoresco, que já teve fama de possuir bons ares, para curar “moléstias do peito”, como diz o povo.

Além das quatro de que falei, três linhas, vindas do centro da cidade, passam por esta localidade, de modo que a impressão que dá não é bem de um subúrbio, mas de uma cidade média. Junte-se a isto a Central com os seus trens de subúrbios, e verão que não aumento.

É o Méier o orgulho dos subúrbios e dos suburbanos. Tem confeitarias decentes, botequins frequentados; tem padarias que fabricam pães, estimados e procurados; tem dois cinemas, um dos quais funciona em casa edificada adrede; tem um circo-teatro, tosco, mas tem; tem casas de jogo patenteadas e garantidas pela virtude, nunca posta em dúvida, do Estado, e tem boêmios, um tanto de segunda mão; e outras perfeições urbanas, quer honestas, quer desonestas.

Na época da publicação dessa crônica, 32 anos depois da inauguração, a Estação do Méier já havia passado por algumas melhorias, mas isso fica para o próximo post.