Coisas da Zona Norte

Se me fosse pedido escolher um parágrafo de Coisas nossas para resumir o espírito do livro, eu ficaria com o que abre a crônica Zona Norte, um guia de afetos: “Eu poderia abusar do clichê e dizer que a Zona Norte do Rio de Janeiro é um estado de espírito. Ou poderia citar Aldir Blanc, o bardo do lado de cá do Rebouças, e afirmar que ela é um estado de sítio. Prefiro, todavia, falar mesmo sobre um território de afetos, um tanto deslocado – para quem olha de fora e imagina que a cidade é apenas praia – do balneário de grandes eventos em que o Rio de Janeiro parece ter se transformado”.

O afeto a que Luiz Antonio Simas – historiador, professor e escritor, morador da região da Grande Tijuca, fã de futebol, filho do samba, do carnaval e dos terreiros – se refere é facilmente identificável em todas as 63 crônicas que nos mergulham na cultura popular carioca. Simas relembra episódios antigos da história do Rio de Janeiro, como a madrugada de 2 de agosto de 1958, quando o Depósito Central de Armamento e Munição do Exército, em Deodoro, o maior da América Latina, explodiu. Resgata do esquecimento brincadeiras antigas de criança, como soltar pipa, rodar pião e jogar bola de gude. Escreve sobre calçados que marcaram época, como o Kichute, o Conga azul e o Bamba branco (eu adorava esses dois últimos, mas minha mãe não compartilhava da minha opinião, então não os tive). Narra o surgimento de personagens famosos, como o Rei Momo, uma invenção de repórteres do jornal A Noite que, em 1930, escolheram o cronista de turfe Francisco Moraes Cardoso para representar o monarca do carnaval do Rio. (Uma curiosidade: na mitologia grega, Momo é filho da Noite. Outra curiosidade: o jornal A Noite funcionava no Edifício Joseph Gire, na Praça Mauá, mais conhecido como Edifício A Noite, que foi o primeiro arranha-céu do Brasil, o edifício mais alto da América Latina e também abrigou a Rádio Nacional.)

Na crônica Coisa da antiga, Simas admite o hábito de usar expressões fora de moda, como chuchu belezamamão com açúcarvirou coqueluche. É uma confissão inevitável. Várias dessas palavras e expressões de antigamente (muitas das quais faziam parte do vocabulário de bocas da família na minha infância, anotei todas em uma lista durante a leitura) voltam à vida em diversos textos ao longo do livro. Elas têm tudo a ver com o clima evocado pelo autor, que reflete sobre o que ele chama de “desumanização da cidade, expressa no desaparecimento dos açougues de rua, das tendinhas, dos clubes pequenos, dos aviários, das barbearias de esquina”.

Na já mencionada Zona Norte, um guia de afetos, Simas oferece um roteiro para quem quiser desbravar um punhado dos mais de 80 bairros da região. Há também crônicas em que ele pensa sua escrita, como a penúltima, Cartografia, em que diz: “Desconfio da existência de um fio condutor no que rascunho: vivo brincando com os limites entre a História e a crônica a partir das encruzas, contando histórias de ajuremados, vagabundos, bebuns, foliões, jogadores de ronda, rufiões, damas da noite, onanistas, poetas fracassados, chacretes, partideiros, coveiros, macumbeiros, perebas e brasileiros miúdos”. Um pouco mais adiante, acrescenta: “Fico na tocaia dos desacontecimentos potentes, e os mundos importantes me interessam pouco ou quase nada. Causam, sobretudo, enfado e desencantamento. Na crise do Brasil, a minha rota de fuga é exatamente o mergulho mais intenso no Brasil”.

Parte das crônicas que compõem o livro foi publicada na coluna que Simas manteve durante quase dois anos no jornal O Dia (atualmente, ele escreve às quintas-feiras no Segundo caderno do jornal O Globo). Algumas circularam em sites e redes sociais (ele escreve SEMPRE no Facebook). Outras são material inédito. Todas trazem para o primeiro plano uma boa parte do Rio de Janeiro que muitos de nós desconhecemos.

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Último dia para ver os retratos da Zona Norte

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Minha vida aconteceu quase que exclusivamente no subúrbio durante muito tempo. Além de morar, era aqui que eu ia à escola e tinha todas as minhas atividades. Grande parte da família também morava por perto e meus amigos eram daqui. Isso fez com que eu demorasse a perceber que, no imaginário do Rio, o subúrbio e os suburbanos não estavam em posição de igualdade com outras áreas da cidade. Felizmente têm surgido um pessoal muito dedicado a mostrar o quão equivocado é restringir a identidade carioca ao entorno da orla. Um dos envolvidos nesse esforço é o blog Zona Norte Etc, que conheci visitando a exposição que está em cartaz até este domingo, 30 de outubro, no Imperator.

A proposta do Zona Norte Etc é mostrar como a moda é interpretada pelas mais diversas personalidades que circulam por essa área da cidade. Desde que entrou no ar, o blog construiu um acervo de fotografias e cerca de 30 delas compõem a exposição Retratos da Zona Norte Etc. São registros de estilos feitos nas ruas e editoriais que documentam a moda e a cultura que emergem daqui.

Um detalhe nada pequeno da exposição que achei altamente enriquecedor foi um vídeo com uma série de análises muito lúcidas sobre o papel do subúrbio e do suburbano na criação da cidade e de sua identidade. Há depoimentos do roteirista Rafael Dragaud, da produtora cultural Gisele Andrade, do idealizador do coletivo Leão Etíope do Méier, o produtor cultural Pedro Rajão, da antropóloga Carol Delgado, da RP da Equipe Duto – Madureira Gessica Justino e do rapper Marcelo Dughettu. Eles falam do morador do subúrbio não como coadjuvante, mas protagonista na criação de moda, cultura, estilo e linguagem, e isso é lindo. Só para rever o vídeo e refletir mais sobre aqueles discursos já voltei à exposição duas vezes, e cogito ir novamente amanhã, como despedida. É um bom programa de domingo.

Era um bom lugar para comprar livros

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A notícia me pegou de surpresa enquanto eu rascunhava um texto sobre a falta de lugares onde comprar livros no Méier. É uma pena, mas por aqui nunca soubemos o que é ter uma grande livraria perto de casa.

No romance Deuses americanos, Neil Gaiman escreve que “uma cidade não é uma cidade sem uma livraria”. “Podem até chamá-la de cidade”, ele diz, “mas se não tiver uma livraria, estarão apenas enganando suas almas”.

Restrinjo mais: acho que todo bairro merece ter uma boa livraria. Mas aqui na região do Grande Méier as Saraivas mais próximas ficam no NorteShopping. São duas, uma ex-Siciliano e uma megastore. Travessa e Cultura não chegaram. O Nova América já teve uma Nobel e hoje tem uma Leitura. Faz tempo que não vou lá, mas achava apenas ok.

Nunca entendi essa ausência de livrarias no bairro. Será que realmente não há demanda? Ou nenhum empresário nunca nem mesmo verificou isso, talvez por não acreditar que livros interessem ao subúrbio? Engraçado que outro dia passei por um vendedor ambulante que estava lendo Nietzsche na calçada.

Há algum tempo, quem vinha quebrando um enorme galho no quesito livros era o Panno, uma loja de jornais e revistas que, desde que me lembro, sempre esteve no Shopping do Méier. Durante um breve período, eles chegaram a ter também uma livraria onde hoje funciona o laboratório Sérgio Franco, na rua Dias da Cruz. Depois levaram os livros para a loja na entrada do shopping e, atualmente, mantinham um acervo muito bom, apesar do pouco espaço. Cerca de dois meses atrás, comprei lá Vozes de Tchernóbil, da jornalista e escritora bielorrussa e Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch. Um livro muito bonito e triste, construído com relatos de pessoas que tiveram a vida atingida pelo desastre nuclear de abril de 1986.

Estava escrevendo sobre a sorte de ter um lugar onde comprar bons livros no bairro quando fui surpreendida pela tal notícia que mencionei no início. Infelizmente, por conta de divergências com as novas diretrizes do shopping, o Panno fechou as portas. Passei em frente a loja ontem pela manhã e já não estava mais aberta. Era certamente o maior e mais tradicional jornaleiro do Méier. Há alguns dias, uma faixa informa que eles se mudaram para a banca de jornais perto da Parmê.

Minha última visita ao Panno foi no sábado. Dei a tradicional olhada nas revistas e nos livros. Escolhi a coletânea que reúne todos os contos da Clarice Lispector, editada pelo biógrafo dela, Benjamin Moser, para comprar como despedida. É um capítulo da história do bairro que acaba. Voltamos à estaca zero no assunto onde comprar livros.

Almoço de sábado no Boi Bão

Almocei ontem no Boi Bão, na rua Lopes da Cruz. Não vou lá com frequência, mas uma coisa engraçada é que todas as vezes sempre me parecem a mesma. Uma sensação de familiaridade por conta de experiências muitíssimo parecidas, principalmente porque as opções do bufê quase não mundam – embora sejam bastante numerosas. O Boi Bão é aquele restaurante a peso aonde se vai com a certeza do que se encontrará. A torta fria de atum, por exemplo. Sei que sempre haverá.

Por sinal, é a torta fria de atum, invariavelmente, o início do meu percurso no bufê. Na sequência, gosto de pegar algumas frutas (ontem o melão e a manga estavam ótimos) e me servir de salada. Então, chega a parte quente, e aí complica. Com tantas combinações possíveis, meu prato começa a se parecer com um arranjo difícil de explicar. Para não piorar, pulo a parte das carnes e sigo direto para a balança. Isso me aconteceu todas as vezes que fui lá.

O Boi Bão é um restaurante com comida boa e atendimento adequado – e uma ótima opção quando se quer almoçar rápido. Acho interessante o ambiente de simplicidade que, combinado às mesas compridas e compartilhadas, sempre me passa uma impressão de lugar acolhedor. É como estar entre conhecidos, mesmo que eu não conheça ninguém que esteja almoçando lá.

Entre os restaurantes de comida a quilo, o Boi Bão é um dos mais queridos do Méier. Os quadrinhos do prêmio Água na Boca estão lá de prova.

Por falar nisso, se tem uma coisa lá que não entendo é a disposição desses quadrinhos. Em um estabelecimento tão amplo, inventaram de amontoá-los todos em um pequeno espaço na parede atrás do caixa. Estão pendurados em ordem cronológica, da esquerda para a direita, mas a sequência vai de baixo para cima. Por alguma razão, não há ao menos dois deles alinhados, não consigo deixar de reparar.

Este ano o Boi Bão voltou a vencer o prêmio Água na Boca na categoria Quilo/Bufê. Isso significa que, em breve, terá mais um quadrinho. Na fila do caixa, tive muita vontade de pedir para arrumar.