Vinte e Quatro de Maio

Outro dia escrevi aqui sobre Lima Barreto. Volto a ele porque hoje é 24 de maio, e a rua Vinte e Quatro de Maio foi o primeiro destino do escritor no Grande Méier. Quando o pai dele enlouqueceu, em outubro de 1902, a família deixou a Ilha do Governador para se instalar no número 223 dessa rua. No ano seguinte, Lima Barreto, seus irmãos e o pai se transferiram para Todos os Santos.

A Vinte e Quatro de Maio tem esse nome em referência a um episódio da Guerra do Paraguai: a vitória do Brasil na Batalha do Tuiuti. Nos dias de hoje, a rua liga o bairro de São Francisco Xavier, na altura do largo Subtenente Manoel Henrique Rabelo, ao Méier, na rua Dias da Cruz. No passado, ela testemunhou o início do turfe no Rio de Janeiro. Quase no final dos anos 1840, o Club de Corridas, uma sociedade anônima, adquiriu um terreno alagadiço, entre São Franciso Xavier e Benfica, onde instalou o Prado Fluminense, o primeiro hipódromo da cidade. Ele foi inaugurado na década seguinte, no começo da Vinte e Quatro de Maio, perto da futura Estação de São Francisco Xavier.

Naquele tempo, a Vinte e Quatro de Maio não tinha a extensão atual. A rua, que resultou da fusão das ruas da Estação, do Leite e Gonçalves, terminava no início da Barão do Bom Retiro. Por iniciativa de Pereira Passos, foi prolongada até alcançar o início da Dias da Cruz. Paralela à linha do trem, a Vinte e Quatro de Maio é uma das principais vias de acesso ao Méier e um dos pontos críticos do bairro, pela má conservação, pelo trânsito constantemente engarrafado e pelos episódios de violência.

Anúncios

A Estação do Méier e o começo do bairro

meier9231

A nova passarela do Méier em 1923. Foto publicada na revista “O Malho” em 2 de julho daquele ano

Chovia naquela segunda-feira. Sem que nenhuma comemoração tivesse sido planejada, a locomotiva Princeza Imperial, que iniciara seu percurso na gare D. Pedro II, chegou pela primeira vez à Parada do Meyer, inaugurando-a. Era o dia 13 de maio de 1889, e o bairro do Méier começava a surgir.

Naquela ocasião, a estrada de ferro ainda levava o nome do imperador – a República só seria proclamada em novembro -, e a locomotiva havia sido assim denominada em homenagem à princesa Isabel, que assinara a Lei Áurea no ano anterior. A inauguração da parada marcou a fundação do Méier. A partir daquele dia, o bairro começou a se formar, impulsionado pelo trem, que hoje o corta ao meio, estabelecendo o lado de cá (da estação) e o lado de lá.

O prédio da atual Estação do Méier não é mais o original. Quando foi inaugurada, como parada, havia apenas uma construção modesta em madeira e uma plataforma pequena. Até 1903, os passageiros precisavam caminhar pelos trilhos para chegar à plataforma de embarque. Somente naquele ano a estação ganhou um prédio em alvenaria.

A estação – e, por consequência, o bairro – possui esse nome por ter sido construída em terras que pertenciam à família Meyer. Ao cedê-las, os filhos de Augusto Duque Estrada Meyer, o camarista Meyer, falecido sete anos antes, fizeram a exigência: o nome da parada seria uma homenagem ao pai e nunca poderia ser trocado, sob pena de a doação perder o valor.

Em 27 de fevereiro de 1952, uma quarta-feira, a Estação do Méier foi notícia na imprensa por conta de um grave acidente que deixou muitos passageiros feridos e também causou mortes. No dia seguinte, foi publicado o seguinte relato:

 O desastre ferroviário na estação do Méier

RIO, 28 (Sucursal) – Comunica a Central do Brasil, por intermédio da Agência Nacional:

“A administração da Central do Brasil, pelas investigações preliminares a que procedeu, com respeito ao lamentável acidente de ontem, à noite, na estação do Méier, aponta como responsável pelo desastre o maquinista do trem de Nova Iguaçu, o qual, não respeitando o sinal amarelo, preventivo, avançou o sinal vermelho, adiante, e entrou na reta daquela estação em grande velocidade. O maquinista, após a violenta colisão, abandonou o seu posto, tomando destino ignorado. A administração da Central já solicitou a prisão do referido servidor da Estrada. Dentro de 48 horas, a comissão de inquérito designada para apurar as causas e responsabilidades do fato apresentará o seu relatório à direção da Central.”