Vai ter música nova no coreto

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Estava tudo certo para começar hoje, 5 de novembro, mas a chuva adiou a estreia do Festival Circuladô, que até o dia 27 vai colocar a música contemporânea carioca em dez coretos do Centro, Zona Norte e Zona Oeste da cidade. O show da banda Mohandas, que estava marcado para abrir o evento, no coreto da Gamboa, na Praça da Harmonia, vai ganhar nova data.

A produtora cultural Julianna Sá é curadora do Festival Circuladô junto com Philippe Baptiste. Ela foi uma das responsáveis pelo Rio Música Contemporânea, no Imperator, e começou a idealizar esse novo projeto em 2014, insatisfeita com a centralização do circuito musical, no que diz respeito à nova música carioca, na Zona Sul da cidade. Veio então a ideia de utilizar os coretos para expandir esse território. Por sinal, eles surgiram na paisagem do Rio, no início do século XX, justamente a função de democratizar o acesso à cultura, até então restrita aos teatro tradicionais.

Em um mapeamento informal, Juliana e o músico Brunno Monteiro saíram em busca dos coretos. Eles percorreram a cidade e os encontraram na Gamboa, em São Cristóvão, Marechal Hermes, Quintino, Realengo, Sepetiba, Vigário Geral, Praça Seca, Méier e Paquetá. Cada um desses espaços receberá apresentações gratuitas de artistas que têm se destacado na produção musical recente da cidade, já tendo tocado até mesmo fora do Rio, mas sem nunca ter se apresentado nos bairros que o festival percorrerá.

No Jardim do Méier, quem subirá ao coreto é a colombo-brasileira Ava Rocha, em 26 de novembro, um sábado. O evento começará sempre a partir das 15h, com o show marcado para às 17h. Aqui é possível ver a programação completa do festival, que tem patrocínio da prefeitura e da Secretaria Municipal de Cultura.

(A linda arte que ilustra este post é de Daniele Pascoaleto, que assina o projeto gráfico do festival.)

Último dia para ver os retratos da Zona Norte

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Minha vida aconteceu quase que exclusivamente no subúrbio durante muito tempo. Além de morar, era aqui que eu ia à escola e tinha todas as minhas atividades. Grande parte da família também morava por perto e meus amigos eram daqui. Isso fez com que eu demorasse a perceber que, no imaginário do Rio, o subúrbio e os suburbanos não estavam em posição de igualdade com outras áreas da cidade. Felizmente têm surgido um pessoal muito dedicado a mostrar o quão equivocado é restringir a identidade carioca ao entorno da orla. Um dos envolvidos nesse esforço é o blog Zona Norte Etc, que conheci visitando a exposição que está em cartaz até este domingo, 30 de outubro, no Imperator.

A proposta do Zona Norte Etc é mostrar como a moda é interpretada pelas mais diversas personalidades que circulam por essa área da cidade. Desde que entrou no ar, o blog construiu um acervo de fotografias e cerca de 30 delas compõem a exposição Retratos da Zona Norte Etc. São registros de estilos feitos nas ruas e editoriais que documentam a moda e a cultura que emergem daqui.

Um detalhe nada pequeno da exposição que achei altamente enriquecedor foi um vídeo com uma série de análises muito lúcidas sobre o papel do subúrbio e do suburbano na criação da cidade e de sua identidade. Há depoimentos do roteirista Rafael Dragaud, da produtora cultural Gisele Andrade, do idealizador do coletivo Leão Etíope do Méier, o produtor cultural Pedro Rajão, da antropóloga Carol Delgado, da RP da Equipe Duto – Madureira Gessica Justino e do rapper Marcelo Dughettu. Eles falam do morador do subúrbio não como coadjuvante, mas protagonista na criação de moda, cultura, estilo e linguagem, e isso é lindo. Só para rever o vídeo e refletir mais sobre aqueles discursos já voltei à exposição duas vezes, e cogito ir novamente amanhã, como despedida. É um bom programa de domingo.

Recordações da rua Oliveira

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Sempre achei que esse ângulo daria uma foto interessante, e no início da tarde de sábado resolvi fazer. Estava saindo do Imperator, parei na calçada, de frente para a rua Oliveira, e apontei o celular. A foto não saiu de primeira. Errei a composição, um ônibus passou, esperei para tentar de novo. Voltei a errar, outro ônibus passou, o sinal fechou, carros ficaram no caminho, esperei mais. Tentei outra vez e, então, gostei do resultado.

Tenho algumas recordações da rua Oliveira. A mais antiga é a de subir ao segundo andar desse prédio na esquina da esquerda para ir à loja que, acredito, deve ter sido a primeira Hering do Méier, muito, mas muito antes dessa bacanuda que hoje existe na esquina da Dias da Cruz com a travessa Miracema. A impressão que guardei é de que a Hering antiga era pequena e simplesinha.

Outra lembrança é da loja de brinquedos Gabriel Habib. Acho que ficava onde agora é o colégio Intellectus, não tenho certeza. Foi ali, em um Natal, que escolhi a minha primeira e única Barbie, pondo fim a uma espera que havia durado toda a infância. Bem mais tarde, passei a ir à rua Oliveira para comprar esmaltes, produtos para o cabelo e outros itens de vaidade na perfumaria que ainda está por lá. Ficava longos minutos na Casa do Perfume.

venezinha-discosMas de todas as lembranças, a primeira que vem à mente quando passo pela rua Oliveira ficou ali no térreo da esquina da esquerda, onde durante tanto tempo foi Venezinha Discos, antes de ser Lugar do Médico. Uma lojinha clássica de música, que pelo menos até 2014 sei que existiu, e eu fantasiava que seria uma das locações da série que eu escreveria sobre o Méier. Ficou no passado, numa época em que ainda se comprava CDs e nem se imaginava que milkshake de Ovomaltine deixaria de ser exclusividade do Bob’s.

Um chicletão na praça Agripino Grieco

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Passei por essa escultura da foto no último domingo na praça Agripino Grieco. O chiclete gigante é parte da exposição Problemão, que quer mostrar como em grande quantidade o lixo pequeno pode ser um baita incômodo no dia a dia. Há mais três esculturas em outros bairros da cidade: uma guimba de cigarro na Cinelândia, no Centro; um copo de café derramado na praça Antero de Quental, no Leblon, Zona Sul; e um canudo no calçadão de Bangu, Zona Oeste do Rio.

A exposição, inaugurada em 5 de setembro, é uma criação do movimento Rio Eu Amo Eu Cuido, que atua em três eixos: limpeza urbana, comportamento no deslocamento e preservação e conservação dos espaços públicos. Para esse trabalho de intervenção na paisagem urbana com a instalação das esculturas gigantes representando lixo, o movimento tomou como base dados da Comlurb. De acordo com a Companhia Municipal de Limpeza Urbana, guimbas de cigarro, copos descartáveis, chicletes e canudos são justamente os itens mais difíceis de serem recolhidos pelos garis, quando descartados de forma inadequada.

Além disso, o descarte irregular de objetos pequenos — com volume de até1m3 — nas ruas é causador de cerca de 65% das multas aplicadas pelo Programa Lixo Zero, da Comlurb. O valor da penalidade para quem joga esse tipo de lixo no chão é de R$ 185.

Era um bom lugar para comprar livros

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A notícia me pegou de surpresa enquanto eu rascunhava um texto sobre a falta de lugares onde comprar livros no Méier. É uma pena, mas por aqui nunca soubemos o que é ter uma grande livraria perto de casa.

No romance Deuses americanos, Neil Gaiman escreve que “uma cidade não é uma cidade sem uma livraria”. “Podem até chamá-la de cidade”, ele diz, “mas se não tiver uma livraria, estarão apenas enganando suas almas”.

Restrinjo mais: acho que todo bairro merece ter uma boa livraria. Mas aqui na região do Grande Méier as Saraivas mais próximas ficam no NorteShopping. São duas, uma ex-Siciliano e uma megastore. Travessa e Cultura não chegaram. O Nova América já teve uma Nobel e hoje tem uma Leitura. Faz tempo que não vou lá, mas achava apenas ok.

Nunca entendi essa ausência de livrarias no bairro. Será que realmente não há demanda? Ou nenhum empresário nunca nem mesmo verificou isso, talvez por não acreditar que livros interessem ao subúrbio? Engraçado que outro dia passei por um vendedor ambulante que estava lendo Nietzsche na calçada.

Há algum tempo, quem vinha quebrando um enorme galho no quesito livros era o Panno, uma loja de jornais e revistas que, desde que me lembro, sempre esteve no Shopping do Méier. Durante um breve período, eles chegaram a ter também uma livraria onde hoje funciona o laboratório Sérgio Franco, na rua Dias da Cruz. Depois levaram os livros para a loja na entrada do shopping e, atualmente, mantinham um acervo muito bom, apesar do pouco espaço. Cerca de dois meses atrás, comprei lá Vozes de Tchernóbil, da jornalista e escritora bielorrussa e Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch. Um livro muito bonito e triste, construído com relatos de pessoas que tiveram a vida atingida pelo desastre nuclear de abril de 1986.

Estava escrevendo sobre a sorte de ter um lugar onde comprar bons livros no bairro quando fui surpreendida pela tal notícia que mencionei no início. Infelizmente, por conta de divergências com as novas diretrizes do shopping, o Panno fechou as portas. Passei em frente a loja ontem pela manhã e já não estava mais aberta. Era certamente o maior e mais tradicional jornaleiro do Méier. Há alguns dias, uma faixa informa que eles se mudaram para a banca de jornais perto da Parmê.

Minha última visita ao Panno foi no sábado. Dei a tradicional olhada nas revistas e nos livros. Escolhi a coletânea que reúne todos os contos da Clarice Lispector, editada pelo biógrafo dela, Benjamin Moser, para comprar como despedida. É um capítulo da história do bairro que acaba. Voltamos à estaca zero no assunto onde comprar livros.

Almoço de sábado no Boi Bão

Almocei ontem no Boi Bão, na rua Lopes da Cruz. Não vou lá com frequência, mas uma coisa engraçada é que todas as vezes sempre me parecem a mesma. Uma sensação de familiaridade por conta de experiências muitíssimo parecidas, principalmente porque as opções do bufê quase não mundam – embora sejam bastante numerosas. O Boi Bão é aquele restaurante a peso aonde se vai com a certeza do que se encontrará. A torta fria de atum, por exemplo. Sei que sempre haverá.

Por sinal, é a torta fria de atum, invariavelmente, o início do meu percurso no bufê. Na sequência, gosto de pegar algumas frutas (ontem o melão e a manga estavam ótimos) e me servir de salada. Então, chega a parte quente, e aí complica. Com tantas combinações possíveis, meu prato começa a se parecer com um arranjo difícil de explicar. Para não piorar, pulo a parte das carnes e sigo direto para a balança. Isso me aconteceu todas as vezes que fui lá.

O Boi Bão é um restaurante com comida boa e atendimento adequado – e uma ótima opção quando se quer almoçar rápido. Acho interessante o ambiente de simplicidade que, combinado às mesas compridas e compartilhadas, sempre me passa uma impressão de lugar acolhedor. É como estar entre conhecidos, mesmo que eu não conheça ninguém que esteja almoçando lá.

Entre os restaurantes de comida a quilo, o Boi Bão é um dos mais queridos do Méier. Os quadrinhos do prêmio Água na Boca estão lá de prova.

Por falar nisso, se tem uma coisa lá que não entendo é a disposição desses quadrinhos. Em um estabelecimento tão amplo, inventaram de amontoá-los todos em um pequeno espaço na parede atrás do caixa. Estão pendurados em ordem cronológica, da esquerda para a direita, mas a sequência vai de baixo para cima. Por alguma razão, não há ao menos dois deles alinhados, não consigo deixar de reparar.

Este ano o Boi Bão voltou a vencer o prêmio Água na Boca na categoria Quilo/Bufê. Isso significa que, em breve, terá mais um quadrinho. Na fila do caixa, tive muita vontade de pedir para arrumar.

Vinte e Quatro de Maio

Outro dia escrevi aqui sobre Lima Barreto. Volto a ele porque hoje é 24 de maio, e a rua Vinte e Quatro de Maio foi o primeiro destino do escritor no Grande Méier. Quando o pai dele enlouqueceu, em outubro de 1902, a família deixou a Ilha do Governador para se instalar no número 223 dessa rua. No ano seguinte, Lima Barreto, seus irmãos e o pai se transferiram para Todos os Santos.

A Vinte e Quatro de Maio tem esse nome em referência a um episódio da Guerra do Paraguai: a vitória do Brasil na Batalha do Tuiuti. Nos dias de hoje, a rua liga o bairro de São Francisco Xavier, na altura do largo Subtenente Manoel Henrique Rabelo, ao Méier, na rua Dias da Cruz. No passado, ela testemunhou o início do turfe no Rio de Janeiro. Quase no final dos anos 1840, o Club de Corridas, uma sociedade anônima, adquiriu um terreno alagadiço, entre São Franciso Xavier e Benfica, onde instalou o Prado Fluminense, o primeiro hipódromo da cidade. Ele foi inaugurado na década seguinte, no começo da Vinte e Quatro de Maio, perto da futura Estação de São Francisco Xavier.

Naquele tempo, a Vinte e Quatro de Maio não tinha a extensão atual. A rua, que resultou da fusão das ruas da Estação, do Leite e Gonçalves, terminava no início da Barão do Bom Retiro. Por iniciativa de Pereira Passos, foi prolongada até alcançar o início da Dias da Cruz. Paralela à linha do trem, a Vinte e Quatro de Maio é uma das principais vias de acesso ao Méier e um dos pontos críticos do bairro, pela má conservação, pelo trânsito constantemente engarrafado e pelos episódios de violência.